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Talentos que transformam a periferia

Um grupo de 20 mulheres acima de 35 anos que vive na Vila Brasilândia – zona norte da cidade de São Paulo – sentia na pele as dores do desemprego e da exclusão social. Mas sonhavam em usar seu talento para transformar o cotidiano. Muitas delas, com baixa escolaridade, mal sabiam o que gostariam – ou seriam capazes – de fazer. Apoiadas pela Fundação Stickel, em parceria com a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Senai, são atualmente mulheres à frente de um negócio comunitário e gerador de renda.

O Programa Mulheres de Talento, da Fundação Stickel, começou em janeiro. Depois dos primeiros encontros e discussões o grupo se dividiu em duas áreas de interesse: o de costura e o de panificação. Não foi um começo fácil.

“Eu insisti na idéia de que elas, em conjunto, deveriam planejar o que queriam, e não esperar algo pronto. Precisavam saber com o quê sonhavam”, diz Monica Picavêa, superintendente da Fundação Stickel, que investe anualmente R$ 2 milhões em 18 projetos na Brasilândia – região com um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano na cidade de São Paulo.

Da ausência de idéias até o esboço dos primeiros cardápios da Doces Talentos – o nome escolhido para o bufê – houve muito trabalho. Margarida Silva, 53 anos, por exemplo, não sabia fazer nem bolos nem pães. Kate Luz, a mais jovem do grupo, com 29 anos, tinha experiência na confecção de bolos caseiros para festas de aniversário no bairro. O curso de panificação do Senai, com carga horária de 500 horas, financiado pela fundação, cumpriu o papel de capacitá-las para o ofício. Nas cozinhas industriais do Senai, o grupo aprendeu a lidar com fornos, batedeiras e outros equipamentos industriais, além de controlar a temperatura e o vapor para dar crocância ou leveza às massas.

Para incrementar o conhecimento básico, receberam a visita da nutróloga Clara Brandão, inventora da multimistura. Esse encontro lhes ensinou o valor nutricional dos ingredientes, além de estimular a criatividade para novas receitas – uma delas, o bolo de banana e farelo de trigo, a marca registrada do bufê.

Em números, o bufê Doces Talentos conseguiu distribuir entre suas dez sócias R$ 1.700 em julho e R$ 4.680 no mês seguinte, fruto de prestações de serviços para coffee breaks, coquetéis e outros eventos. Setembro, ainda sem faturamento fechado, foi um mês especial: foram contratadas para preparar e servir um coquetel para a princesa da Dinamarca, Marie Cavallier, que participava do lançamento de um programa da Fundação Lego, em São Paulo.

O ambiente e o grupo vêm sofrendo transformações. As vizinhas de bairro hoje são sócias de um negócio comunitário gerido por elas mesmas. Ainda não têm autonomia total; o negócio de alimentação e de confecção são projetos incubados por dois anos. Nesse período, o Programa Mulheres de Talento vai cumprindo sua metodologia: capacitação para ofício, gestão e formalização, desenvolvimento pessoal e microcrédito. E as mulheres vão aprendendo na prática e na teoria.

Na sala onde se reúnem as mulheres do grupo de corte e costura, no andar de cima da Paróquia São José Operário, chamam à atenção as cartolinas coladas na parede. Nelas estão escritas as regras de funcionamento da empresa: horário de trabalho, etapas da produção, encomendas de clientes e divisão de tarefas atribuídas a cada uma delas. “Trabalhamos a inclusão social a partir de negócios democráticos, onde a tomada de decisão é coletiva e a distribuição de resultados é feita de forma proporcional entre as sócias trabalhadoras”, diz Felipe Bannitz, coordenador da Incubadora tecnológica de Cooperativas Populares da Fundação Getúlio Vargas.

Bannitz coordena 40 grupos produtivos no Brasil e carrega consigo uma verdade: “Não adianta oferecer conteúdos que não façam sentido. É importante, no processo pedagógico, pensar, sentir, para então fazer”. Para contribuir com a construção deste conhecimento, uma vez por semana, os projetos de alimentação e costura recebem um técnico em incubação da FGV que vai tratar de assuntos como abastecimento, produção, vendas e finanças, todos estruturantes da autogestão.

Teoria e prática vão se emaranhando e forjando empreendedorismo. O grupo das costureiras criou a marca Brasilianas feito à Mão, especializada na produção de ecobags produzidas a partir de banners e sobras de tecidos cedidos pela Sparco (fabricante de acessórios automobilísticos). Djanira Bispo, 55, Maria Lina de Abreu, 80, e Ana Maria Mitkute, 46, já faziam artesanato, mas não sabiam usar as cinco máquinas industriais que foram doadas ao projeto. Nalva Baia, 47, fazia pequenas costuras em casa. “A gente nem sabia que tinha essa capacidade. Esse talento estava guardado”, diz, sem tirar os olhos da costura, apressada para atender uma encomenda de 500 ecobags para a Associação Paulista de Fundações.

Atualmente as ecobags têm diversos modelos – dos mais simples, feitos exclusivamente com o material plástico aos mais trabalhados, com aplicação de tecidos, tramas, fuxico. Além da criatividade individual, as costureiras contam com o reforço do designer André Cruz, que lhes propõe oficinas criativas a cada quinze dias.

O primeiro faturamento com a venda de bolsas feitas com banners rendeu R$ 180 para cada sócia da Brasilianas no mês de agosto. Mas a expectativa é de que o negócio prospere com o aquecimento do mercado nos últimos meses do ano. Ana Maria Mitkute é responsável por abrir os canais comerciais com os clientes e a participação em exposições e feiras. Mas o desafio maior continua sendo o de romper o paradigma do mercado, ainda conservador.