MEMA RIO BRANCO
PARECE PINTURA
ABERTURA
31 agosto sábado 11 às 16h
VISITAÇÃO
até 28 setembro terças à sextas 11 às 18h sábados das 11 às 15h
ESPAÇO FUNDAÇÃO STICKEL
Rua Nova Cidade 195 Vila Olímpia
Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
Moraes Moreira, “Mistério do planeta”
Em julho de 2012, Mema Rio Branco abriu uma conta no Instagram e postou uma foto. Três dias depois, outra. Dois dias depois, mais uma. E assim por diante, continuamente, até hoje (janeiro de 2024), quando já passam de nove mil e quinhentas. Fotos do cotidiano, despretensiosas, mas que refletem um ponto de vista eclético, afetivo, refinado. Ponto de vista de alguém que cresceu rodeada do que convencionamos chamar de bom gosto e, como se isso não bastasse, vive há mais de vinte anos em Roma, onde a vocação estetizante tem a idade das (sete) colinas – afinal, Roma foi a única polis presente nas três florações consensuais do mundo ocidental: o Clássico, o Renascimento, e a Modernidade.
Dessas quase dez mil fotos escolhemos apenas uma centena, extraída de um par de anos recentes, para representar o todo. Uma representação inadequada, incompleta, estatisticamente pouco significativa. Uma representação que não se pretende representativa, pois isso, mesmo se fosse desejável, seria uma ambição desprovida de linha condutora (não é à toa que as compilações musicais de greatest hits costumam ser tão desconexas). Então foram pinçados apenas alguns aspectos. Um recorte, como dizem, que remete, como dizem, a um todo imensamente mais rico e variado que, se não se encontra por completo nessas paredes, está ao alcance de todos a poucos cliques de distância.
É informativo ver, no Instagram da Mema, o conteúdo dos comentários e o número de likes. Em algumas fotos não há comentários e são poucos os likes. Outras têm dezenas deles, e uma multiplicidade de coraçõezinhos. Ao pensar essa exposição, foi tentador ser democrata (ou demagogo?) e escolher as cem fotos com o maior número de likes.
A exposição se chamaria Vox Populi e, assim eliminaríamos o exercício da subjetividade, que é a maior tarefa, ou fardo, do curador. Do curador constrangido que deseja a Morte do Curador. Mas, aí, a exposição seria um experimento sociológico, a materialização do paladar visual de um focus group. Sem dúvida útil para marketing, se fosse essa a intenção da artista. Mas, evidentemente, não é. Não há, em Mema, nenhuma intenção de se tornar influencer, de enriquecer promovendo mercadorias para uma legião de séquitos. Seus setecentos seguidores – pouco para doze anos de atividade – são principalmente amigos e conhecidos. Pessoas com um viés de carinho. Pois então, apesar de todas essas considerações, o propósito da exposição é apresentar uma perspectiva sobre o olhar da própria Mema, e não traçar um perfil estético dos seus seguidores.
Dito isso, os seguidores nos trouxeram algo de útil. Talvez o comentário mais recorrente seja “parece uma pintura”. Isso nos faz lembrar como a mente é associativa, insistindo em ver formas nas nuvens, mas as associações com a palavra pintura são mais complexas, pois a pintura não se resume a uma imagem específica, é todo um meio de expressão. Um meio não apenas figurativo, como quase toda fotografia, mas também não-representativo. Algumas das escolhas para essa exposição foram guiadas pelo comentário “parece pintura”, tanto em sua encarnação abstrata quanto na figurativa. As fotos que aparentam ser mais abstratas servem, também, para contestar o colete que confina a fotografia, desde o seu surgimento, à representação de maneira documental, mesmo que seja com viés artístico. Colete do qual é quase impossível fugir, pois toda fotografia tirada com lente é, em última análise, representativa, mesmo que pareça abstrata (basta pensar em como uma fotografia de uma pintura abstrata parece abstrata, mas não é).
De que é composto o repertório visual da artista? Paisagens, céus dramáticos, prédios, casas, escadas rolantes, detalhes arquitetônicos, automóveis, calçadas, flores, árvores, cachorros, pássaros, cavalos, areias, piscinas, sombras, festas, parentes, pessoas, pés, sapatos. Mas uma longa lista, para quem não está familiarizado, entra por um olho e sai pelo outro. São fotos tiradas em casa, em viagens, em festas, em casamentos. No cotidiano de uma pessoa “normal”, se é que isso existe. Não são fotos de um correspondente de guerra como Robert Capa, ou de um cronista da beleza que permeia a miséria como Sebastião Salgado. Estão mais próximas de uma celebração do velho e bom belo, como as de tantos fotógrafos renomados. Não são fotos políticas, pelo menos no sentido denunciatório. Pelo contrário, celebram uma vida de prazeres, uma dolce vita. Mas, como sabemos, todo ato é político, e se o que é dito sempre contém o que não é dito como seu inverso implícito, retratar os múltiplos encantos que nos rodeiam contém, inevitavelmente, um poderoso lamento pelo descaso, potencialmente fatal, com o qual os tratamos.
Parte da graça das fotos de Mema é a facilidade com que elas nos seduzem, nos transformam em cúmplices, pois são fotos sem a garbosidade de quem se pretende artista com “a” maiúsculo. Os detalhes que encantam esse olhar atento e perspicaz nos encantam também, de tal maneira que cada foto compartilhada parece um gesto de generosidade, como quem nos sopra “olhe aqui, gostaria que você visse isto”. Acima de tudo – e mais do que os agrupamentos de paisagens, quase-abstrações, e arquiteturas aos quais se concentra a exposição –, o assunto dessas fotos é a essência literal do meio fotográfico: a luz, que aparece aqui em todas as suas gradações, da noite mais profunda até o branco mais brilhante.
A exposição Parece Pintura, tal como concebida para a Fundação Stickel – que cumprimentamos pela inspiração de convidar a artista –, é composta por quatro grupos que chamamos de “cardumes”. Dois destes contêm 18 fotos horizontais e os outros dois contêm 20 fotos verticais. Cada cardume de horizontais é composto por seis colunas verticais de três fotos, enquanto cada cardume de verticais é composto por dez colunas verticais de duas fotos. Todos esses números são consequência direta das dimensões das paredes da Fundação, que desejamos preencher de maneira totalizante, sem espaçamentos subjetivos. Para cada um dos quatro cardumes pretendemos ordenar as fotos em ordem crescente ou decrescente de luminosidade. Esse procedimento tem três propósitos: imbuir cada conjunto com a aparência, subliminar ou explícita, de um ordenamento coletivo, como costumamos ver em cardumes de peixes ou revoadas de pássaros; diminuir o quociente de subjetividade autoral do tal curador constrangido; e propiciar combinações impensadas que, pela lei natural dos encontros, possam surpreender.
Oswaldo Corrêa da Costa
Curador
A Fundação Stickel apresenta a exposição inédita de Mema Rio Branco, que exibe suas fotos pela primeira vez. Sua principal ferramenta não é uma câmera sofisticada nem o conhecimento acumulado em cursos e congressos, mas a insistência e a presença na hora e no lugar certos. Seu principal foco é a natureza, que, enquanto se exibe gloriosa, não dá a mínima para os fotógrafos. Estes sempre procuraram com muita disposição registrar o sublime em paisagens naturais, como fizeram Ansel Adams (1902-1984) na famosa foto Moonrise e Imogen Cunningham (1883-1976) nas suas imagens botânicas.
A diversidade de fotógrafos e de técnicas que surgiram a partir do século XIX para registrar a natureza é gigantesca – desde câmeras eletrônicas operadas à distância para captar animais exóticos até gigantescas e pesadas câmeras analógicas de grandes formatos, laboriosamente carregadas até posições privilegiadas para então cumprir sua função. No polo oposto, surgiram em 1937 as minúsculas câmeras-espiãs Minox.
À sua maneira, Mema dedica-se a espionar o mundo, e escolheu para isso uma das menores e mais poderosas câmeras disponíveis no mercado: a do telefone celular! Com essa ferramenta extremamente prática e versátil, ela vem fotografando com método e perseverança a paisagem natural mundo afora. Nunca se cansa, nunca desiste e aceita com gosto o desafio da indiferente Mãe Natureza. Seu celular a acompanha diuturnamente e nada escapa ao seu olhar afiado.
Suas fotos encantam pela diversidade, incluindo aqui e ali a obra do homem, mas, sobretudo, a noite, a chuva, a neblina, o alvorecer, o céu, o mar e o pôr do sol. Sua prolífica produção enseja a apresentação de seu trabalho sob a forma de “cardumes”, habilmente criados pelo curador da mostra. Estes criam conversas e situações pelas quais a natureza não tem o menor interesse – essa parte fica para nós, humanos, que criamos as relações e as histórias, curtindo e admirando as fotos de Mema.
Fernando Stickel
Nasce em São Paulo em 1965. Graduada pela Fundação Getúlio Vargas, tem passagens por instituições financeiras e agências de propaganda. Em 1999 cria um ateliê de cerâmica, produzindo peças utilitárias para restaurantes e lojas de decoração.
Desde pequena, encorajada e incentivada pela família e fascinada por livros de arte, se encanta pela fotografia. Recebe sua primeira câmera aos doze anos, uma Xereta (Kodak), depois uma Pentax com lentes intercambiáveis, e vem colecionando diversos modelos analógicos e digitais, sendo sua favorita uma Nikon 35Ti 35mm “point and shoot”, ainda analógica. Com o tempo, seduzida pela praticidade e agilidade do celular, quase aposenta as máquinas fotográficas. Muda-se para Roma em 2002. Em 2012 cria sua conta no Instagram, onde já acumula quase dez mil postagens. Sua primeira exposição é composta por fotos publicadas no Instagram e tiradas, em sua grande maioria, com o celular.







