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Livio Tragtenberg

Como definir o artista Livio Tragtenberg? Difícil. Por isso mesmo decidimos fazer uma exposição de seus trabalhos. Músico, compositor, maestro, DJ, VJ, pioneiro da “arte sonora”, ele vem transitando pelo mundo apresentando e produzindo uma obra polimórfica, e escrevendo livros de música adotados em inúmeras faculdades brasileiras. Outros ainda não, como o recente O que se ouviu e o que não se ouviu na semana de 22. Mas é certo que será. E logo.
 
Autor de trabalhos radicais em performance, de trilhas sonoras para cinema e teatro, muito de sua atividade desenvolve-se em laboratório coletivo, no limiar entre o músico profissional e o não-músico – ou não revelado enquanto tal. Um único exemplo: em 2004, Livio montou a Orquestra de Músicos das Ruas de São Paulo, engrenando a versatilidade, a tradição e a invenção do músico popular, amador, imigrante ou não, das aglomerações paulistanas. Experimentou esse formato no Rio de Janeiro, em Miami, Berlim e Bruxelas, até chegar à formação da Orquestra Mediterrânea, reunindo músicos da Grécia, Espanha, Marrocos, Sérvia, Itália, França, Líbano e Turquia. 
 
Autonomeado “decompositor”, sua pesquisa é desde sempre entre linguagens, atravessando também a literatura e as artes visuais. Além da vanguarda musical –  Erik Satie,  John Cage, Frank Zappa, Karlheinz Stockhausen –, a poesia concreta de Décio Pignatari e dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos é vetor da sua formação. 
 
Ver, ouvir, sondar a cidade em companhia de Livio Tragtenberg, é abrir-se ao imprevisto, à experiência de um mosaico de acasos. Seu objetivo é o avesso da anestesia reiterada por tantos espaços e ritmos urbanos: é pelo aguçamento da escuta, do olhar, da observação ou, em suas próprias palavras, uma busca por conceber a arte “como se estivesse andando na rua em São Paulo, dobrar uma esquina e ter uma surpresa, dobrar outra, e ter outra”.

Vincent Rosenblatt

Rio Night Fever

Desde 2005 o fotógrafo francês, radicado no Rio de Janeiro, Vincent Rosenblatt, que é branco, vem dedicando centenas de noites insones a mergulhar nos bailes, no sensual, energético corpo-a-corpo do povo funkeiro, eminentemente preto. Demorou um bom tempo até merecer respeito, o reconhecimento pela montagem de um acervo único: o retrato de uma parcela da juventude carioca que têm na dança, no ritmo pesado e nas letras cruas, o antídoto sadio contra a extraordinária pressão que sofrem.

Atraído pelos tremores graves que ecoavam em Santa Teresa, repercutindo na boca do estômago de quem vive pelos arredores, e pelo ímpeto dos versos que desde sempre desmentem o mito da convivência cordial, Vincent foi chegando e tomando pé nas novas noites cariocas. Os DJs, MCs e bondes de dançarinos abduziram-no para mais e mais bailes, especialmente os das favelas e subúrbios dos quais eram crias. Protagonistas do funk compartilharam com ele a responsabilidade e também o perigo de se produzir imagens em locais visados por uma imprensa hostil e pela violência governamental.

O funk interessa ao artista especialmente quando ultrapassa as fronteiras, quando amplia os limites do que temos direito de expressar. Seja guerreiro, político ou sexual, ele trabalha na ponta extrema do espectro da liberdade de expressão. Vincent diz que isso tem a ver com a essência da fotografia, que busca sempre ampliar o espectro do “domínio do visível”. Afinal, o que nos permitimos fotografar? Onde nos permitimos reconhecer a beleza do mundo?

Adolfo Montejo Navas

Antologia Poética

O espanhol Adolfo Montejo chegou ao Rio de Janeiro, no começo dos anos 90. Veio atraído pela nossa música. Qual? Quase toda ela. Da música de Noel Rosa à de Guinga e Hermeto Paschoal, seus amigos. Escrevia artigos que enviava para seu país de origem e, encantado pela cena artística visual, começou a escrever também sobre ela. Tornou-se correspondente da revista Lápiz, durante décadas a mais importante publicação espanhola dedicada às artes plásticas. A princípio as pessoas julgavam que se tratava de um crítico refinado, cuja sólida formação o capacitava a transitar por duas linguagens: música e artes visuais. Pois o melhor ainda estava por vir. 
 

Aos poucos foram sabendo da sua poesia. Da sua surpreendente qualidade, do modo como se espraiava pela poesia visual, articulando literatura com desenho e pintura. E com objetos. Bem, começou a ficar complicado enquadrar o Adolfo Montejo Navas. Até porque da crítica passou à curadoria, realizando exposições antológicas. E delas, quando se viu, passou a expor com os artistas curados por ele, por exemplo Paulo Bruscky e Vladimir Dias Pino. A lista é grande. Sem abandonar nenhuma de suas atividades, encontrou espaço para escrever e publicar, numa velocidade de fazer seus conhecidos se encolherem de medo, caprichadas edições quase artesanais de seus livros. 

Muita gente conhece Adolfo Montejo Navas, ou pensa conhecê-lo. Poucos conhecem o artista. Isso não pode ficar assim. Quando a pandemia acabar realizaremos uma mostra dele com um único trabalho: um livro de artista chamado Antologia poética, composto por 136 notas de dinheiro reais que Adolfo colecionou a partir de 2005. Cédulas de países de todos os continentes. Pois bem, o que isso tem a ver com arte? Seguinte: o denominador comum entre todas é o fato de trazerem a efígie de um poeta. Poesia e dinheiro, veja que binômio mais contraditório. Dinheiro é, por definição, uma abstração, um equivalente geral. Já a poesia, fundada na manipulação, no fabrico e na reinvenção da linguagem, é o que há de mais concreto. Sem ela, não estaríamos sequer nos falando. Que tal? A menor nota de todas é uma nota grega de um Dracma. O poeta? Homero. O Deus pai da poesia.
 
Antologia Poética é uma típica obra de Adolfo Montejo Navas, com o dedo em riste para as incongruências do mundo. Um dadaísta versado em Julio Cortazar, de quem é admirador confesso. Um grande, legítimo, inequívoco Cronópio.